terça-feira, 22 de junho de 2010

Capítulo IV.

Nunca soube dizer ao certo se aquelas palavras me ajudaram ou só atormentaram um pouco mais, porém elas estiveram lá e não há como mudar uma história.
- Não fique com medo, ao menos não demonstre, se eles descobrirem você está acabado.
- Quem disse que... - Virei para ver quem poderia ser - estou com medo?
- Com certeza, deve ser só minha visão que está um pouco embaçada. - Disse ele meio que sorrindo. -
Foi a primeira vez que vi Antônio, talvez tenha sido a circunstância, mas acabei achando que havia feito um novo amigo antes mesmo de adentrar o terreno do meu novo pesadelo escolar. O impressionante mesmo foi quando entrei naquele lugar pela primeira vez, lembro como se fosse hoje, senti uma forte ligação com tudo ali logo quando pisei o primeiro pé dentro, mas foi quando fiquei no meio daquele pátio imenso que tive a sensação de que tudo era possível. Meio improvável, pois, dez segundos após toda aquela nostalgia o sinal estava soando e me acordando do sonho e, finalmente, percebi que não sabia onde era minha sala e que não sabia nada. Por ser um dia quente, como de costume, decidi arriscar um pouco e não aparecer na aula naquele dia, não sei dizer, pareceu uma aventura para mim neste momento. Apenas por alguns minutos até descobrir que ninguém realmente se importava com aquilo que fazia lá, ninguém estava me tratando como uma criança e talvez devesse tomar uma atitude de gente grande e fazer as coisas corretas. Mas aquele pensamento logo fugiu e sorri sozinho, pensando em quão idiota fui por alguns segundos.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Capítulo III.

Naquele dia acordei atrasado como era de se esperar, afinal o verão daquele ano parecia ter sido um pouco mais longo que os outros, mas finalmente ele tinha acabado. Não que isso tenha sido algo a comemorar na hora. Acontece que quando abri os olhos e comecei a me conectar com o mundo, um barulho ensurdecedor não me deixava raciocinar direito, minha mãe gritava para que levantasse logo e tomasse meu banho, pois, de qualquer maneira chegaria atrasado na aula, justo no primeiro dia. Eu não estava muito animado e não tinha motivos para estar, era uma escola nova, com pessoas novas e eu não tinha facilidade com primeiros encontros. Pensei que se faltasse o primeiro dia as coisas ficariam mais fáceis, porém logo me veio o pensamento de que mesmo que só fosse pra aula na quinta-feira ainda seria meu primeiro dia na escola nova e aquilo me deixou para baixo novamente. Bem, de maneira apressada tomei banho, escovei os dentes e escolhi uma roupa para ir, sem me importar muito com qual era, naquele colégio não havia a mesma coisa chata do antigo, uniforme. Sorri um pouco, estava começando neste dia meu ensino médio e, pelo que todos diziam, seria a melhor fase da minha vida e apesar de estar com cara de sono finalmente estava animado. Então sai de casa, na metade do caminho percebi que havia esquecido de me pentear e, juro, meu cabelo nunca fora meu melhor amigo, para falar a verdade sempre achei que ele me odiava. Então, alguns quarteirões depois, lá estava a nova escola, com uma quantidade imensa de pessoas entrando e saindo e um frio incomum na espinha me fez tremer um pouco.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Capítulo II.

Acredito que quando criança as coisas eram simplesmente sim e não, talvez não existia. Ou você queria algo ou não, muitas das vezes a decisão nem era sobre uma coisa tão importante assim, não para os parâmetros de vida que sigo agora. Sabe, no fim da vida morrer não é a coisa mais terrível que pode acontecer, o grande x da questão está em passar seus últimos dias infelizes e solitário. Quando pequeno para tudo que queria havia mais alguém que se juntava as idéias, mesmo se fosse só para brincar de pirata ou mesmo ficar em casa assistindo desenhos por horas, nessa época a preocupação estava basicamente em me alimentar e ver coisas engraçadas, os estudos eram sempre deixados em último plano, hoje não consigo parar de estudar, ler coisas, tentar me atualizar. O peso das coisas que não fiz não é grande, muitos dos dias o que pesa mais são as coisas que fiz, aquelas pessoas que fui deixando de lado, aquele emprego que aceitei em outra cidade, tudo bem que conhecimento era vital, porém hoje parece mera trivialidade. No fim de tudo o que mais penso é em como cresci feliz, horas atrás estive recordando do dia em que ganhei minha primeira bicicleta, não havia nada mais legal que aquilo, do dia em que entrei no colegial e logo após o ensino médio, aqueles sim eram bons dias. Quando fui parar naquele colégio novo e com pessoas diferentes confesso que gelei por alguns segundos, mas logo em seguida aproveitei e muito. Lembro do primeiro beijo, a minha primeira paixão juvenil e de todos os momentos que antecederam a separação dos grandes companheiros da adolescência. Aqueles sim eram ótimos dias.