terça-feira, 9 de novembro de 2010

Capítulo V.

- Só me dei conta muito tempo depois de que estava sozinho sentado naquele lugar novo, quase consigo tocar essa lembrança. O vento soprava suave e meus pensamentos corriam longe, tentava imaginar onde estariam meus amigos agora e o que estariam fazendo, mas no meio desta busca fui interrompido por uma voz que de cara me pareceu familiar. Lá estavam eles, eram Marcos, Eduardo, Cristiano e Andressa, aqueles seriam grandes companheiros, mas ainda não sabia.
Primeiro Eduardo me ofereceu um cigarro, que logo recusei, fiquei assustado porque nunca tinha visto nenhum aluno fumando dentro de uma escola, mas não me importei tanto assim. Marcos falava bastante sobre como este ano seria bom, ele tinha planos, mas não fazia questão de dizer quais eram. Talvez fosse o fato de que havia um novato por perto, mas Andressa não se importava e interrogava-o para saber quais planos eram esses.
Senti uma vontade incontrolável de estabelecer contato e então perguntei a eles de que ano eram, ao que todos disseram ser do primeiro ano, mas estranhei já que todos pareciam familiarizados com o ambiente, então questionei:
- Mas vocês não parecem ser novos por aqui... São?
- Não, a gente já tá aqui há dois anos. - Disse Eduardo.
- E de que sala vocês são?
- 563 C.
Aquilo era tudo que precisava saber, todos eram da mesma sala que eu! O que me deixava feliz e intrigado, feliz porque já tinha conhecido alguém e intrigado para saber se todos desta escola eram tão desprendidos quanto meus novos companheiros.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Capítulo IV.

Nunca soube dizer ao certo se aquelas palavras me ajudaram ou só atormentaram um pouco mais, porém elas estiveram lá e não há como mudar uma história.
- Não fique com medo, ao menos não demonstre, se eles descobrirem você está acabado.
- Quem disse que... - Virei para ver quem poderia ser - estou com medo?
- Com certeza, deve ser só minha visão que está um pouco embaçada. - Disse ele meio que sorrindo. -
Foi a primeira vez que vi Antônio, talvez tenha sido a circunstância, mas acabei achando que havia feito um novo amigo antes mesmo de adentrar o terreno do meu novo pesadelo escolar. O impressionante mesmo foi quando entrei naquele lugar pela primeira vez, lembro como se fosse hoje, senti uma forte ligação com tudo ali logo quando pisei o primeiro pé dentro, mas foi quando fiquei no meio daquele pátio imenso que tive a sensação de que tudo era possível. Meio improvável, pois, dez segundos após toda aquela nostalgia o sinal estava soando e me acordando do sonho e, finalmente, percebi que não sabia onde era minha sala e que não sabia nada. Por ser um dia quente, como de costume, decidi arriscar um pouco e não aparecer na aula naquele dia, não sei dizer, pareceu uma aventura para mim neste momento. Apenas por alguns minutos até descobrir que ninguém realmente se importava com aquilo que fazia lá, ninguém estava me tratando como uma criança e talvez devesse tomar uma atitude de gente grande e fazer as coisas corretas. Mas aquele pensamento logo fugiu e sorri sozinho, pensando em quão idiota fui por alguns segundos.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Capítulo III.

Naquele dia acordei atrasado como era de se esperar, afinal o verão daquele ano parecia ter sido um pouco mais longo que os outros, mas finalmente ele tinha acabado. Não que isso tenha sido algo a comemorar na hora. Acontece que quando abri os olhos e comecei a me conectar com o mundo, um barulho ensurdecedor não me deixava raciocinar direito, minha mãe gritava para que levantasse logo e tomasse meu banho, pois, de qualquer maneira chegaria atrasado na aula, justo no primeiro dia. Eu não estava muito animado e não tinha motivos para estar, era uma escola nova, com pessoas novas e eu não tinha facilidade com primeiros encontros. Pensei que se faltasse o primeiro dia as coisas ficariam mais fáceis, porém logo me veio o pensamento de que mesmo que só fosse pra aula na quinta-feira ainda seria meu primeiro dia na escola nova e aquilo me deixou para baixo novamente. Bem, de maneira apressada tomei banho, escovei os dentes e escolhi uma roupa para ir, sem me importar muito com qual era, naquele colégio não havia a mesma coisa chata do antigo, uniforme. Sorri um pouco, estava começando neste dia meu ensino médio e, pelo que todos diziam, seria a melhor fase da minha vida e apesar de estar com cara de sono finalmente estava animado. Então sai de casa, na metade do caminho percebi que havia esquecido de me pentear e, juro, meu cabelo nunca fora meu melhor amigo, para falar a verdade sempre achei que ele me odiava. Então, alguns quarteirões depois, lá estava a nova escola, com uma quantidade imensa de pessoas entrando e saindo e um frio incomum na espinha me fez tremer um pouco.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Capítulo II.

Acredito que quando criança as coisas eram simplesmente sim e não, talvez não existia. Ou você queria algo ou não, muitas das vezes a decisão nem era sobre uma coisa tão importante assim, não para os parâmetros de vida que sigo agora. Sabe, no fim da vida morrer não é a coisa mais terrível que pode acontecer, o grande x da questão está em passar seus últimos dias infelizes e solitário. Quando pequeno para tudo que queria havia mais alguém que se juntava as idéias, mesmo se fosse só para brincar de pirata ou mesmo ficar em casa assistindo desenhos por horas, nessa época a preocupação estava basicamente em me alimentar e ver coisas engraçadas, os estudos eram sempre deixados em último plano, hoje não consigo parar de estudar, ler coisas, tentar me atualizar. O peso das coisas que não fiz não é grande, muitos dos dias o que pesa mais são as coisas que fiz, aquelas pessoas que fui deixando de lado, aquele emprego que aceitei em outra cidade, tudo bem que conhecimento era vital, porém hoje parece mera trivialidade. No fim de tudo o que mais penso é em como cresci feliz, horas atrás estive recordando do dia em que ganhei minha primeira bicicleta, não havia nada mais legal que aquilo, do dia em que entrei no colegial e logo após o ensino médio, aqueles sim eram bons dias. Quando fui parar naquele colégio novo e com pessoas diferentes confesso que gelei por alguns segundos, mas logo em seguida aproveitei e muito. Lembro do primeiro beijo, a minha primeira paixão juvenil e de todos os momentos que antecederam a separação dos grandes companheiros da adolescência. Aqueles sim eram ótimos dias.

sábado, 29 de maio de 2010

Capítulo I.

Essa é a primeira memória que tenho, ela não é perfeita, pra falar a verdade, não me lembro de muita coisa sobre essa lembrança. Lembro que havia um céu, cujo azul igual nunca consegui ver, muito estrelado, era uma noite limpa e podia-se observar muito bem as estrelas e qualquer outra coisa que, possivelmente, movia-se por ali. Acredito que essa seja a melhor época da minha vida, talvez esteja enganado, mas posso garantir que era muito boa, a vida era simples e eu tinha apenas alguns anos de idade. A única preocupação que tinha naquela época era se comeria um cereal, minha preferência, ou uma fruta, pra agradar minha mãe, e quase sempre ficava com aquilo que mais gostava, contrariando totalmente o que minha mãe sempre dizia. Hoje vejo que deveria ter aproveitado mais aquelas frutas, mas isso não é o que importa agora. Quando tinha apenas cinco anos ouvi uma lição para minha vida toda, vinda da maior figura que tive em minha vida, meu pai, ele me disse que não importa o quanto você cresça, não importa o quão inteligente você fique ou quanto dinheiro você possa ter, há sempre algo que nunca compreenderá. Por mais incrível que possa parecer, e nem mesmo eu sei dizer o porquê, guardei aquelas palavras e meu pai. Quando tinha seis sofri um acidente grave, quase morri, mas, felizmente, Deus estava ao meu lado ou só tive sorte, não sei dizer ao certo, sobrevivi. Quando tinha oito tive uma lição da minha mãe e ela me disse: Filho, mesmo que você chegue ao topo do mundo, nunca pise em quem está abaixo de ti e sempre lembre-se de onde veio. Então, com essas poucas palavras e muito amor e apoio familiar, apesar dos desentendimentos, cresci.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Prólogo.

Antigamente o céu não era tão estrelado, eu não olhava tanto a lua e também não vagava por horas vazias pensando sobre o que estava acontecendo a mim. Os planos costumavam ser apenas para alguns instantes, nunca para sempre, os sonhos pareciam ser intocáveis e a vida sempre me foi generosa. Acontece que quando ela subia aquela escada e eu estava ali em cima sem saber o que fazer para desviar o olhar de sua direção, quando minha respiração ficou acelerada, quando tudo pareceu resumir-se a apenas ela, tudo no meu mundo teve uma notável diferença. Aquilo que sempre sonhara parecia estar logo ali a minha frente, mas como uma distancia do céu até a terra. Pudera eu ter a sabedoria para desvendar os mistérios em seus olhos, pudera também saber voar e encontrar no ar algo que te pudesse prender comigo. Então por um segundo tudo se calou, o mundo parou de girar, a paixão tomou conta, subiu a cabeça, nos fez reféns e então nos deixou para que pudéssemos ser nós mesmos novamente. Se um dia puder recordar de algo como esse começo de meio sem fim, poderei então voar, mas não como uma ave qualquer, talvez como um corvo, porque acredito que um corvo quando avistado voando sozinho seja um sinal de sorte.